sábado, 6 de fevereiro de 2010

Andava calma pela rua interminavelmente reta. Um livro na mão, um punhado de idéias na cabeça e uma lista de como viver a vida na bolsa. Segura do futuro, esquecendo do passado. Cabelos ao vento, um amor tranquilo e um veneno anti-monotonia.
Tudo o que precisava agora era de uma pitada de felicidade em pó e alguns segredos de liquidificador. Não se importava que a felicidade acabasse derretendo e sumindo no final das contas, preferia uma felicidade branda. Não se importava que os segredos acabassem sendo mentiras. Afinal, mentiras sinceras sempre interessam.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

quando fico triste fico simples simples simples assim mesmo sem ponto ou vírgula vou excluindo excluindo excluindo até sobrar só eu mas não um eu qualquer é um eu limpo e de tão limpo aéreo tão aéreo que ninguém além de mim consegue ver esse eu verdadeiro e fico feliz em saber que ele está bem longe de olhos curiosos e maldosos que só querem saber mais e mais e guardar mais e mais não não eu só quero uma limpeza infinita o que for importante sempre vai ficar escondido em algum canto de mim como aquela vez que eu desejei que tu fostes feliz e tu acabou sendo então eu fiquei puta da cara porque tu sabes que sou ciumenta e egoísta e uma baita arrogante às vezes e tentei fazer uma limpeza total mas não consegui porque a tua felicidade sempre vai ser a minha e tu nunca vais entender é algo tipo de mãe para com filho e mãe não apaga de si a felicidade do filho mesmo que ela pense pense pense e fique mal com essa felicidade ai eu precisava te falar isso eu precisava e eu eu te amo e eu eu te amo e eu e eu e eu como na música do nelson como o amor mais puro de mãe para filho

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Wong Kar-Wai | Amores Expressos

He Zhiwu, Cop 223: We're all unlucky in love sometimes. When I am, I go jogging.
The body loses water when you jog, so you have none left for tears.

Sobre Caio Fernando Abreu

Caio foi um grande escritor portoalegrense. Tinha uma escrita leve e usava, muitas vezes, dessa leveza para falar de assuntos que, em sua época, eram um grande tabu. Por exemplo, a homossexualidade.
Ele mesmo nunca escondeu a sua e escrevia abertamente sobre isso em vários contos. Tentava passar que, apesar das diferenças nestes seus personagens homossexuais, todos eles eram humanos e tinham crenças, problemas, amores, etc como todo mundo.
Seus contos mais bonitos são os mais simples. Simples a ponto de não conterem maiúsculas em começos de frases e aspas ou travessões em conversas.
É a simplicidade que, por traz, mostra a inteligência de alguém que já estudou demais, já leu demais e percebe que não é necessário escrever de modo rebuscado para impressionar o leitor. Maravilhoso.
Conselho: Caio F. Abreu - Morangos Mofados.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Falta

Sinto falta da chuva lá fora. Sinto sede da chuva lá fora, diria Ramil. O cheiro dela vindo, dela passando e lavando tudo pela frente. O movimento conforme o vento, como as ondas do mar. A escuridão e, mais tarde, a claridade que cega, que nega todo o breu passado. Que faz nascer, que faz morrer. Morrer casas e gente. Mais gente que casas.
Sinto falta do arredondado das ruas. Tudo o que vejo são quadrados pontiagudos e traiçoeiros se passando por redondos. Sempre gostei de formas circulares. Desse "sempre" que ele passa, dessa calma e estabilidade. Quero essa estabilidade sempre pra mim, sempre em mim.
Sinto falta de ti, então olho pela janela. Lá fora a chuva molha os prédios arredondados e, depois de observar tudo, escrevo lentamente, como que para te dar mais tempo pra voltar. E há volta? Não, não gosto de pensar nisso...Um calafrio percorre meu corpo, junto os braços a minha volta para me proteger. Do frio e da falta.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Top Lex | Édison de Abreu Souza

Veja só, mas que mancada,
pelo jeito que tô vendo
essa moça tá querendo
é nadar no mar pelada.

Ontem vi ela na praia,
isso foi de tardezinha,
tô falando que é verdade,
não é mentira minha.

Ela tava sem sutiã,
só usava uma tanguinha,
eu juro que é verdade,
não é mentira minha.

Com a tanga pequenininha
pouca coisa ela tapa,
pois o pano da tanguinha
não me dava uma gravata...

E se a moda pegá,
veja só o resultado:
criança que vai à praia
vai ficá desconfiado.

Menino de dois ano
que já era desmamado,
vendo tudo aquilo à mostra,
tá doente o coitado!

O menino lá na praia
não parava de chorá:
- mamãe, saia da água
que tô querendo mamá!

Pra essas mocinha nova
fica bem, fica ajeitado,
mas pras mulher que são velha
fica tudo pendurado.

E por causa dessa moda
meu avô fez uma briga,
porque a vó tava na praia
com os peito na barriga!

- O Poeta de Monte Santo, págs 34 e 35 -

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Cem Anos de Solidão | Gabriel García Márquez

Não se tinham visto a sós, nem se tinham dito uma palavra diferente do cumprimento, na noite em que sonhou que ele a salvava de um naufrágio e ela não experimentava nenhum sentimento de gratidão e sim de raiva. Era como ter lhe dado a oportunidade que ele desejava, sendo que Meme queria o contrário, não só com Mauricio Babilonia como também com qualquer outro homem que se interessasse por ela. Por isso ficou tão indignada que depois do sonho, em vez de detestá-lo, teria experimentado uma urgência irresistível de vê-lo. A ansiedade se fez mais intensa no correr da semana e no sábado já era tão premente que teve que fazer um esforço enorme para que Mauricio Babilonia não notasse, ao cumprimentá-la no cinema, que o coração lhe saía pela boca. Ofuscada por uma confusa sensação de prazer e raiva, estendeu-lhe a mão pela primeira vez, e só então Mauricio Babilonia se permitiu apertá-la. Meme chegou, numa fração de segundo, a se arrepender do impulso mas o arrependimento se transformou imediatamente numa satisfação cruel, ao comprovar que também a mão dele estava suada e gelada.
- pág. 273 -